Pela primeira vez, eu sonhei um sonho inteiro. Daqueles de começo, meio e fim que te fazem pensar que foi um livro, um filme, uma estória que você escutou ou uma música que passou correndo num carro de som. Durante a noite de cidade movimentada, eu nem sempre sei quando é sono e quando é acordado, fico mesmo perdida em algum lugar pelo meio de tantas horas reviradas no colchão.
Estavam chegando numa casa e se acomodando depois de uma viagem longa. Batiam os lençóis brancos, com cheiro de goma, que refletiam a luz do sol que entrava pela janela. O vão da porta da sala era arqueada, e as paredes, caiadas, eram grosseiras e alvas como os lençóis. O chão era de barro vermelho e madeira. Eram a mãe, um menino e uma menina. O garoto tinha saudades extremas do pai, mas não sabia onde ele estava. Era o tempo da guerra, época em que as pessoas sumiam e nem mesmo diziam tchau, antes de desaparecer. O pai não tinha dito tchau.
São oito e meia da manhã, e muito do que eu sonhei já parece desaparecer. Eu lembro da roupa do menino, calção preto, curto, calça branca e suspensórios. As mulheres eram de vestido, embora eu não lembre mais da cor nem cumprimento. Mas eu lembro que o menino brincava com o pai, dizia “papai está aqui” e logo depois levava um safanão da irmã mais velha, e ninguém acreditava nele. Um dia, o garoto resolveu contar para a mãe e a irmã que o seu pai estava explicando onde estava. Que mesmo no meio da guerra, eles ainda podiam se encontrar de novo, se a família o procurasse.
“Sabe aquela fotografia de família, que vocês tiraram há alguns dias? Pega ela, menino, e mostra para as mulheres que eu ainda estou aqui”, disse o pai. E, de fato, a foto em preto e branco impressa no papel grosseiro não deixava dúvidas, havia mais uma pessoa nela. Na janela à esquerda da foto, o rosto do pai agora aparecia. E as mulheres começaram a escutar o menino. E seguiram, seguiram, passaram por hospitais e bases e vilas até encontrar o corpo do pai. Vivo, mas extremamente debilitado. Depois do reencontro, mãe e filhos se reuniram em frente a uma grande janela ensolarada do hospital. E olharam a fotografia, mais uma vez. O rosto havia sumido. Com a família reunida, as forças do pai se restabeleceriam melhor.
Eu lembro claramente a alegria do rosto das mulheres, o vestido rodado refletindo a luz, no momento em que elas perceberam a mudança na fotografia. Eu acho que lembro dos sorrisos, mas não consigo reconhecer quem eram a família, cada um dos personagens. Queria ter memória melhor, sabia?
Semanas depois, com o pai reabilitado, o menino contou o que aconteceu. E o pai explicou que hum, talvez não fosse ele o rosto da foto. E também nunca falara nada ao menino sobre como poderia ser encontrado. O pai do pai há muito muito tempo também tinha ido para a guerra e também não tinha dado tchau à mulher e aos filhos. Mas o pai do pai nunca mais voltou. E se parecia muito com o pai.
Tudo o que eu me lembro, depois disso, foi o pai já completamente estabelecido, andando por uma trilha de grama com o filho nos ombros, e, ao lado dele, uma outra parelhamas translúcida: o pai do pai e um garotinho nos ombros dele. Acordei meio sem entender o sonho-estória-completa, bem a tempo de perceber meu ventilador com cheiro de queimado.
Bom dia pra todo mundo!
08 agosto, 2007
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Um comentário:
eu so escrevi mesmo pra num esquecer...sao 9:20 da manha agora...depois eu ajeito o texto...
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