Bem num desses dias de camadas e camadas de areia fina trazidas pelo vento sobre o casco, o Calypso recebeu uma visita enquanto o do Galo não olhava. De cara e pele que pareciam derreter sobre os próprios ossos, o velho subiu a bordo do barco, olhou em volta e encarapitou-se caixa acima, num canto de parede. Ofegante, mas não menos atento. Tirou fumo e papelote do bolso, cortou, enrolou e lambeu. Acendeu e puxou, soltando a fumaça no compasso negativo típico da idade. E ficou lá no alto, que nem papagaio, acocado nas próprias pernas, pensando cada trago.
Mas os olhos dele não paravam, mais vivos que o velho, observando cada detalhe do barco. Fitava as ranhuras da madeira e os restos de palha, de cordas e de peixes espalhados pelo chão, enquanto as unhas faziam um barulho fino, incômodo, enquanto percorriam a pintura gasta das paredes. Todos constatavam a força e o equilíbrio daquele Calypso, construído por mão certeira como aquela do João.
Já era noite quando aquele conjunto de peles pendentes - o velho - resolveu se mexer. Esticou o pescoço. Levantou. Entre os dentes esparsos que lhe sobravam, debulhou uma reza, meio grunhido, um som de cadência parecida e ao mesmo tempo contrária ao cair das ondas. E se calou novamente, porque já aquele mesmo olho congelava a visão da primeira estrela a dar adeus aos dia.
Na outra manhã o João acordou com uma coceira na mente, um futricar de idéias que não conseguia entender. E uma vontade de fumar danada. Esquisito. Inquieto. Veio o repente. Era preciso vender o Calypso. Sim, era preciso. Porque agora era um enojar largo que tinha pelo barco. E mandou ao diabo cada hora gasta no construir da embarcação, cada grama de força retirada de suas entranhas e gastas no arrastar do barco da areia para o mar e do mar para a areia.
Se desfez do barco.
Queria nem saber, nunca mais, de construir barco algum.
Ia viver agora só de vender salgado, o João.